Inspiração para a vida: um homem transformado pela literatura de Carolina Maria de Jesus

Por Tânia Lins* 

No coletivo, ele observava cartazes, placas de sinalização, nomes das lojas. As letras estavam por toda a parte. Ele já sabia reconhecer alguns daqueles símbolos graças às aulas de alfabetização que frequentava, mas ainda era incapaz de formar uma palavra completa. Sabia também que consoantes e vogais compunham o alfabeto — palavra que a professora repetia com frequência.

Ansioso, não via a hora de saber ler. Já havia observado que certas pessoas pareciam adivinhar o que estava escrito só de olhar as palavras. “Quando esse milagre acontecerá comigo também?”, divagava o jovem, que, pelas dificuldades da vida, fazia parte das estatísticas do analfabetismo no país.

Atento ao percurso, que acompanhava através da janela, apertou de encontro ao peito a sacola de plástico que levava consigo, sentindo o caderno e o estojo escolar com lápis e borracha. Se conseguisse algum trabalhinho extra, logo mais poderia comprar a caixa de lápis de cor, seu sonho de infância. Que lindeza era aquilo! Tantos lápis de diferentes cores! Pareciam até um arco-íris. “Não, muito mais!”, corrigiu-se mentalmente, porque a professora dissera que aquele arco colorido lá no céu tinha apenas sete cores.

Enquanto o veículo sacolejava pelas ruas impessoais daquela metrópole, o rapaz projetava-se para os dias vindouros, imaginando as oportunidades que teria quando lesse e escrevesse com desenvoltura. Quem sabe o patrão lhe atribuísse outras funções, como anotar os pedidos ou até mesmo cuidar das contas do estabelecimento? Enfim, como ouvira inúmeras vezes, seria um empregado qualificado, livre do medo de perder o emprego. Já vislumbrava um futuro de prosperidade profissional. Mas havia algo maior, que não tinha preço. Sim, logo estaria apto a escrever, de próprio punho, a carta que mudaria para sempre sua vida.

Por anos, acalentou aquele desejo, uma necessidade de confessar o sentimento sufocado no âmago, de pedir que seu amor de infância o esperasse, pois ele voltaria um dia para sua cidade natal, e, juntos, construiriam uma família. Perdido naquele sonho, imaginava as crianças correndo no oitão da casa, enquanto ele cuidava da plantação simples, porém sortida, e a esposa preparava a refeição modesta para a família.

Ouvindo-lhe a narrativa, muitos arriscavam a aconselhá-lo a telefonar para a moça, no entanto, por mais que pensasse, não havia jeito de colocar aquilo em prática. Afinal, teria que fazer uma ligação interurbana, o que já encareceria o intento; depois, ela não tinha telefone em casa, o que o forçaria a telefonar para a única mercearia do povoado e pedir que a chamassem. Já imaginou como a história se espalharia sem demora? Não, não era direito expor a jovem daquela maneira. Ela ficaria malfalada, e isso não estava certo. Além disso, diante dos ouvidos curiosos dos transeuntes, uma vez que usaria um telefone público, ele mesmo não teria coragem de dizer o que lhe ia n’alma. Então, estava decidido. A maneira mais segura (e por que não dizer mais romântica?) era escrever-lhe uma carta. Mas teria de contar com a discrição do carteiro. Ah, diabos! Seria melhor, então, que omitisse o remetente no envelope, tomando cuidado para se revelar somente quando a moça lesse a missiva.

O futuro tornou-se presente, e, finalmente, a carta, cuidadosamente escrita e passada a limpo várias vezes, ficou pronta. “Como é possível que uma folha possa abrigar um sentimento do tamanho do mundo, que a gente carrega no coração?”. Ainda que não pudesse responder àquela indagação íntima, o jovem não cabia em si pela mágica de transpor para o papel sentimentos que, de outra maneira, ficariam aprisionados para sempre em sua alma, tentando escapar-lhe muitas vezes por um nó na garganta até emergir numa catarse em forma de lágrimas. Com ele, felizmente, não seria assim. Aquela carta representava a alforria de um amor guardado por anos e que agora teria seu destino certo.

Resoluto, apressou o passo até os Correios. No caminho, olhou novamente para aquela tão cobiçada vitrine. Quantas vezes passara por ali, sem, contudo, ter coragem de entrar? Afinal, o que faria naquele lugar meses atrás, diante de símbolos que lhe eram silenciosos? Agora, contudo, a situação era diferente. Não havia razão para ter medo. Leu com orgulho o nome na fachada — LIVRARIA — e entrou decidido. Mal sabia que seus passos o conduziriam a um universo singular, onde o conhecimento tinha cheiro, textura, cores e tantas possibilidades.

Imerso naquele ambiente mágico, folheou exemplares e encantou-se com a profusão de títulos, formatos e capas. Curiosos, seus olhos pousaram num exemplar de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Com mãos ágeis, iniciou a leitura ali mesmo e ficou surpreso ao descobrir a origem humilde da autora, que, com um vocabulário simples — que fugia à gramática normativa — descrevia, em forma de diário, seu cotidiano de miséria, fome, violência e marginalização.

“Quanta sabedoria aquela mulher tinha! E se eu também pudesse escrever assim?”, pensou o rapaz ao ver naquela história semelhanças com a própria vida. Nunca havia imaginado que uma pessoa como ele — simples, sem muito estudo, que vivia em uma habitação humilde, tal como a autora — pudesse escrever livros.

Algo despertou nele: uma necessidade urgente de escrever a própria história, de guardar no papel detalhes que, um dia, talvez, a memória não seria mais capaz de reter. Queria ser como Carolina, que mostrou para o mundo — suas obras foram publicadas em quatorze idiomas e mais de quarenta países — que cultura abrange um universo que não se limita à norma culta e que sua pouca instrução não era uma barreira para ela se expressar de forma genuína e contundente.

Agora, seus sonhos não cabiam mais em uma carta. Como encolheria as ideias que teimavam em se fazer grandes, indo além do que ele conhecia e havia planejado por anos?

Olhou o relógio que decorava a parede da livraria. Àquela hora, a agência dos Correios já estaria fechada, porém aquilo não tinha importância. Já havia se decidido. Postaria a carta numa outra oportunidade, ou não, quem sabe? Naquele dia, sua vida se modificara. Seu mundo agora tinha outras possibilidades!

PS: Pode um homem ser transformado pela literatura produzida por mulheres? Será que eles têm consumido textos escritos por autoras? E, qual o resultado desse tipo de leitura: seria capaz de causar uma fissura no patriarcado e contribuir para uma nova geração? Esse tema contemporâneo – bastante relevante – tem despertado o meu interesse e será o fio condutor de novas pesquisas e novos textos.

 

 

*Tânia Lins é graduada em Administração de Empresas e pós-graduada em Língua Portuguesa e Comunicação Empresarial e Institucional. Atua há quinze anos na área editorial, com experiência profissional e acadêmica voltada à edição, preparação e revisão de obras, gerenciamento de produção editorial, leitura crítica e coaching literária. Atualmente, é coordenadora editorial na Editora Vida & Consciência.

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